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Por que Mário Schenberg?

A escolha de homenagear Mário Schenberg, quando fundamos este instituto, se deu por o considerarmos um exemplo a ser admirado e seguido.

Schenberg foi um cientista brasileiro que contribuiu, através de suas pesquisas, para o avanço da física e matemática. Ainda, lutou pelo desenvolvimento do Brasil, através da defesa dos interesses econômicos do país e da luta pelo fomento e difusão da ciência entre nossa população. No entanto, foi vítima de perseguição, sendo forçado, por motivos políticos, a deixar sua carreira acadêmica. Hoje, apesar de suas contribuições serem reconhecidas internacionalmente, é um nome pouco conhecido pelos brasileiros. A história de Mário Schenberg reforça aquilo que ele próprio acreditava.



“É necessário criar um certo clima intelectual no País: a realização de pesquisas científicas certamente vai mudar a maneira de pensar das pessoas. Será, então, possível desenvolver um pensamento muito mais objetivo, muito mais realista do que esse tipo de pensamento fantástico que reina na vida nacional, orientando a administração brasileira.”

(SCHENBERG, Mário. Formação da mentalidade científica. Estudos Avançados, v. 5, p. 123-151, 1991. pp. 130)

A seguir, comentaremos algumas das contribuições de Mário Schenberg para a história da ciência e do Brasil.



Trabalho científico de Mário Schenberg

Ao longo de sua carreira, Mário Schenberg produziu uma vasta contribuição à comunidade científica, em especial nos campos da física, astrofísica, e matemática. Dentre as numerosas contribuições, pode-se destacar algumas que se tornaram mais conhecidas pelo seu impacto nos respectivos campos. O primeiro deles foi o processo Urca, que ele propôs junto com George Gamow em 1940. Eles sabiam que uma estrela, para explodir em forma de supernova, precisava antes colapsar gravitacionalmente, o que parecia impossível por que os elétrons formavam um cristal incompressível. A menos que, como propunha M. Schenberg, eles fossem absorvidos pelos prótons (processo inverso ao decaimento beta), gerando neutrons e emitindo neutrinos. A explosão da supernova 1987A na galáxia vizinha da Nuvem de Magalhães aconteceu quando já existiam observatórios de neutrinos, e eles demonstraram que as previsões do processo Urca eram incrivelmente precisas. Um outro trabalho fundamental para a Astrofísica Estelar foi publicado por Schenberg e Chandrasekhar em 1942. Foi o chamado Critério Schenberg-Chandrasekar. Antes desse trabalho, se imaginava que as estrelas pudessem fazer a fusão do Hidrogenio (H) em Helio (He) sem parar até que toda a massa de H da estrela tivesse sido queimada. Para o Sol, isso levaria da ordem de 100 bilhões de anos, o que era espantoso, dado que a idade do Universo era tida como de poucos bilhões de anos. Se isso fosse verdade. Todas as estrelas que nasceram no Universo ainda estariam em sua mais tenra infância. Mário Schenberg, usando uma simples régua de cálculo (pois ainda não existiam computadores) fez milhares de cálculos e mostrou que uma estrela, após ter queimado 10% do H no núcleo, não consegue mais continuar esse processo de fusão. Para o Sol, isso indicaria que a fase principal de sua vida duraria apenas 10 bilhões de anos. Como a Terra tem menos de 5 bilhões de anos, podia-se argumentar que o Sol está na metade de sua vida. Ainda, deve-se destacar a contribuição de Schenberg à matemática quântica. Duas de suas proposições foram, posteriormente, retomadas por outros pesquisadores, impactando a forma de se compreender os processos quânticos. Uma das contribuições foi sua proposta, em 1958, de adição de um novo operador idempotente à álgebra de Heisenberg. O físico britânico Basil Hiley, nos anos (19)80, retomaria essa proposta ao trabalhar a álgebra de Heisenberg estendida. Essa contribuição permitiria uma nova abordagem aos problemas de incerteza quântica propostas por Heisenberg e Schrödinger. Outra contribuição nesse campo foi a proposta de subordinação da gravitação ao modelo eletromagnético. Uma abordagem inovadora sobre as proposições de Einstein sobre a relação entre esses dois fenômenos, colocando o eletromagnetismo em posição privilegiada como fator de medição dos fenômenos naturais. Essa contribuição foi reconhecida pelo professor F. Hehl, da Universidade de Colônia, na Alemanha, entre final dos anos (19)90 e início dos 2000. Sem dúvidas, as descobertas de Schenberg o colocam no rol dos grandes pensadores do Brasil e de toda a humanidade.



A Contribuição Política

Além de contribuir com o avanço na ciência de base, Schenberg foi importante figura na luta pela mudança na relações entre a administração pública brasileira e o desenvolvimento técnico-científico do país. Sua atuação o levou a ser eleito Deputado Estadual em São Paulo duas vezes. A primeira, para a Assembleia Constituinte do Estado de São Paulo, em 1948, pelo PCB, e a segunda para Assembleia do Estado de São Paulo, em 1962, como deputado estadual pelo PTB. Em ambas as vezes, sua atuação foi frustrada pela perseguição política. Duas pautas podem ser destacada na vida política de Schenberg. A primeira foi a defesa dos interesses do povo brasileiro sobre os recursos energéticos do país. Atuou em defesa da campanha “O Petróleo é Nosso”, em 1948. Foi crítico ao Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, em 1974. Entendia que esse acordo não traria ganhos para a população, dada a disponibilidade da energia hidroelétrica no Brasil, mas acarretava riscos ambientais e sociais consideráveis, em especial dada a escolha por grandes reatores nucleares. Também foi figura importante na aprovação de um fundo de amparo à pesquisa, em 1948, que mais tarde serviria como base para formação da FAPESP. Além de sua preocupação direta com a ciência e tecnologia do país, sempre defendeu a democracia, e que o Estado deveria se colocar sempre em favor dos interesses gerais do povo brasileiro.

Perseguição e Esquecimento

A atuação política de Mário Schenberg em favor da ciência e do povo brasileiro lhe renderam uma feroz perseguição que o levaria a ter seu real valor para história de nosso país praticamente apagado. Essa perseguição teve início já em 1948. Naquele ano, o Partido Comunista Brasileiro foi cassado, e com isso todos os seus deputados eleitos tiveram também seus mandatos cassados. Schenberg, que era então professor da USP e deputado na Assembleia Constituinte do Estado de São Paulo se viu hostilizado. Na época, sindicatos foram colocados sob intervenção do governo, e aqueles acusados de serem comunistas eram detidos para averiguações. Por isso, ao receber a proposta do Professor Occhialini para trabalhar em Bruxelas, ele aceitou, utilizando para isso sua licença premium e um pedido de emenda com suas férias. O então Reitor da Universidade de São Paulo, contrariando as decisões da congregação da Faculdade, não apreciou seu pedido, o que poderia acarretar a sua expulsão do quadro funcional. Só voltaria ao Brasil em 1953, sob o governo de Getúlio Vargas, e logo assumiu a direção do Departamento de Física da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da USP. Só sairia do cargo de diretor em 1961, se preparando para a eleição de deputados de 1962. Dessa vez, nem sequer chegou a exercer mandato, tendo seu diploma cassado acusado de ser comunista, apesar de ter concorrido pelo PTB. Nos anos seguintes, se dedicaria ao seu curso de Mecânica Quântica, ministrado na USP. Em 2 de abril de 1964, um dia após o Golpe Militar, Mário Schenberg foi preso, resultando na interrupção de seu curso. Schenberg ficou preso por cinquenta dias, endo solto mediante um quadro de piora de sua saúde e graças a forte pressão internacional por parte de cientistas de renome, como o professor Werner Heisenberg. Entre 1964 e 1965, teve que lutar judicialmente para conseguir exercer plenamente sua função de professor da USP. Com o Ato Institucional número 5 (AI-5), em 1968, Schenberg novamente entraria na mira da Ditadura Militar. Em abril de de 1969, foi aposentado compulsoriamente da USP. Em outubro, com o Ato Complementar 75, ficou proibido de até mesmo trabalhar em outras instituições pública ou patrocinadas pelo governo. Só voltaria a ter direito a uma vida acadêmica com a Lei de Anistia, de 1979, com sua reintegração à USP. Mas durante todo esse período, Schenberg não foi alvo apenas da perseguição daqueles que detinham o poder político. Era alvo de difamação, e teve que enfrentar a perseguição e má vontade de membros da academia que, por ambição ou inveja, buscaram o impedir de seguir sua brilhante carreira de cientista. Como refúgio, para se sustentar e encontrar um sentido de vida, Mário Schenberg passou a atuar como crítico de arte, onde sua criatividade e capacidade interpretativa livre lhe renderiam também reconhecimento da comunidade, chegando a ser homenageado pelo museu digital da Casa das Rosas com a exposição “O Mundo de Mário Schenberg”, em 1995, em reconhecimento à sua contribuição e incentivo ao mundo artístico.

Fontes:

SCHENBERG, Mário. Formação da mentalidade científica. Estudos Avançados, v. 5, p. 123-151, 1991. pp. 130

SOUZA, Aroldo Quinto de et al. A visão de ciência de Mário Schenberg: intuição e imaginação nas origens das ideias científicas. Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo: 2012.

REVISTA TRANS/FORM/AÇÃO. Entrevista: Mário Schenberg.  São Paulo: Revista Trans/Form/Ação, n3, pp. 9-62, 1980.

Materiais para leitura:

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